Porque nem todo o poliéster reciclado é igual

O termo “poliéster reciclado” é hoje amplamente utilizado na indústria têxtil, muitas vezes como sinónimo automático de sustentabilidade. No entanto, assumir que todos os poliésteres reciclados apresentam o mesmo comportamento técnico é um dos erros mais comuns — e mais caros — no desenvolvimento de produto.

Na prática, existem diferenças profundas entre diferentes tipos de poliéster reciclado, e essas diferenças têm impacto direto na durabilidade do tecido, na estabilidade dimensional, no toque, no aspeto visual e no desempenho ao longo do tempo.

A origem da matéria-prima faz a diferença

Um dos primeiros fatores a considerar é a origem do material reciclado. O poliéster reciclado pode ser proveniente de:

  • resíduos pós-consumo (como garrafas PET)

  • resíduos pós-industriais (sobras de produção, desperdícios controlados)

O poliéster reciclado pós-consumo apresenta maior variabilidade. As garrafas têm históricos diferentes, níveis de contaminação distintos e são recolhidas em contextos muito variados. Mesmo com processos de reciclagem avançados, esta variabilidade reflete-se na regularidade do fio.

O poliéster reciclado pós-industrial, por outro lado, parte de uma matéria-prima mais controlada e homogénea. Isso traduz-se, muitas vezes, em maior consistência técnica, melhor regularidade do fio e menor risco de variações entre lotes.

O processo de reciclagem e o controlo do fio

Para além da origem, o processo de reciclagem desempenha um papel central. Tecnologias diferentes produzem fios com propriedades distintas em termos de:

  • resistência à tração

  • uniformidade

  • estabilidade dimensional

  • comportamento após lavagens

Dois tecidos com exatamente a mesma composição “100% poliéster reciclado” podem comportar-se de forma completamente diferente em uso real. Um pode manter forma, cor e toque durante meses; outro pode deformar, perder elasticidade ou apresentar desgaste prematuro.

É por isso que analisar apenas a composição declarada ou a presença de uma certificação não é suficiente.

Porque a ficha técnica não conta a história toda

A ficha técnica é um ponto de partida, mas raramente conta a história completa. Propriedades como toque, recuperação elástica, resistência ao pilling ou estabilidade após lavagens dependem de fatores que não estão explícitos na ficha.

Sem uma análise mais profunda do fio e do processo produtivo, o risco de inconsistência aumenta — especialmente em produções recorrentes ou em coleções com reedições.

O impacto real em produto e em marca

Quando a variabilidade do poliéster reciclado não é devidamente considerada, os problemas surgem mais tarde:

  • diferenças visíveis entre lotes

  • inconsistência de qualidade ao longo das coleções

  • reclamações de consumidores

  • custos adicionais com retrabalho ou devoluções

Para marcas que procuram crescer de forma sustentável e consistente, estes riscos são particularmente críticos.

A abordagem correta: análise técnica antes da decisão

Na Victor Têxteis, a análise do poliéster reciclado começa sempre no fio e no processo produtivo, não apenas na etiqueta ou na certificação. O objetivo é garantir que o material escolhido corresponde efetivamente ao uso final do produto e às expectativas do consumidor.

A sustentabilidade real passa também por consistência, durabilidade e adequação técnica — não apenas por rótulos.

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